Um projeto de rede de distribuição não é desenho de linhas num mapa. Segurança, eficiência e durabilidade dependem de três dimensionamentos que modelam o comportamento físico e elétrico de cada componente. São eles que a concessionária confere.
1. Mecânico: tração, vento, esforço e flecha
Uma rede aérea está permanentemente sob carga. O dimensionamento mecânico existe para garantir que postes e cabos aguentem.
Esforço resultante no poste
Cada vão exerce tração nos postes que o sustentam. Em trecho reto e nivelado essas forças se cancelam. Em ângulo, derivação ou fim de linha, não: a soma vetorial resulta num esforço que o poste precisa suportar, comparado ao limite nominal da estrutura — 300 daN, 600 daN, o que o padrão da concessionária definir.
A tração dos cabos não é a única força em jogo. O vento atua sobre a área exposta dos condutores e sobre o próprio poste, e essa parcela entra na composição do esforço resultante. Ignorá-la subestima a solicitação justamente nas estruturas de ângulo e fim de linha, que já são as mais carregadas.
O problema prático é a escala. Compor esses vetores à mão, poste a poste, num projeto com dezenas ou centenas deles, é repetitivo e é onde o erro entra.
Flecha
A curva que o cabo forma entre dois postes não é livre. A flecha precisa ser calculada para garantir a distância mínima até o solo, até edificações e até outras redes, considerando a temperatura ambiente — que dilata e contrai o condutor — e o peso do cabo.
Onde o software entra
A partir do desenho georreferenciado, a tração de cada vão sai do comprimento real e do ângulo entre vãos. A composição com a ação do vento é feita em cada poste e comparada com a capacidade nominal, sinalizando na planta o que ficou subdimensionado.
2. Elétrico: queda de tensão
Tão decisivo quanto a robustez mecânica é entregar energia na tensão correta ao último consumidor.
Conforme a corrente percorre os cabos, parte da tensão se perde na impedância — resistência e reatância — dos condutores. A ANEEL e as concessionárias estabelecem limites rígidos: geralmente entre 3% e 5% em regime permanente.
O cálculo depende do comprimento de cada trecho, da carga acumulada (a soma das demandas de todos os lotes abaixo daquele ponto), do fator de potência e das características do cabo. Com múltiplas ramificações, deixa de ser uma conta e vira uma análise de fluxo de potência.
Onde o software entra
Percorrendo a topologia a partir do transformador, o programa soma as cargas conectadas e calcula a queda acumulada em cada ponto do circuito. Como o resultado é imediato, testar outra bitola de cabo ou redividir os circuitos passa a ser uma decisão de minutos.
3. Luminotécnico: NBR 5101
Iluminação pública não é instalar luminária: é distribuir luz de forma verificável, em conformidade com a ABNT NBR 5101.
A simulação parte do arquivo fotométrico IES, fornecido pelo fabricante, que
descreve como aquela luminária distribui luz no espaço. Com ele, a via é simulada e as
métricas conferidas:
- Iluminância média, em lux
- Uniformidade, para não sobrar mancha escura na pista
- Luminância, em cd/m², nas vias de tráfego
Feito em ferramenta separada, isso significa exportar geometria, remodelar a via e reconciliar o resultado — trabalho que costuma ser terceirizado justamente por isso.
Onde o software entra
Com o módulo luminotécnico no mesmo ambiente, os postes já locados no mapa entram na simulação direto. Você aplica o IES, configura a via e lê o resultado em mapa de isolinhas, comparado automaticamente com a classe exigida.
O que os três têm em comum
Os três partem da mesma geometria: onde estão os postes, qual o vão, qual o ângulo, qual a carga. Quando essa geometria vive em um lugar só, os três cálculos leem a mesma verdade. Quando vive em três arquivos, alguém precisa mantê-los sincronizados — e é aí que o projeto volta da concessionária.